Merz destaca metais críticos do Brasil e oferece tecnologia alemã em parceria estratégica
Na maior feira de inovação e tecnologia industrial do planeta, Brasil e Alemanha deram nesta segunda-feira, 20 de abril, um passo significativo em direção a uma parceria estratégica de longo prazo. O chanceler alemão Friedrich Merz, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, destacou o imenso potencial do Brasil no fornecimento de metais críticos e sinalizou que a Alemanha está pronta para oferecer tecnologia em troca. O encontro ocorreu à margem da Hannover Messe 2026, evento que neste ano tem o Brasil como país parceiro.
Brasil como protagonista na cadeia global de metais críticos
Merz foi direto ao abordar o tema que hoje movimenta governos e indústrias em todo o mundo. “Há oportunidades significativas na extração econômica de certos metais necessários para a mobilidade eletrônica e turbinas eólicas”, afirmou o chanceler. Em seguida, deixou clara a proposta alemã: “A Alemanha está preparada para apoiar o Brasil com conhecimento tecnológico e experiência, a fim de expandir ainda mais essas relações.”
A declaração reflete a crescente corrida global por metais como lítio, nióbio, grafita, terras raras e níquel — insumos essenciais para a fabricação de baterias, painéis solares e equipamentos de energia renovável. Nesse contexto, o Brasil desponta como um dos atores mais estratégicos do planeta. Com apenas 30% do potencial mineral mapeado, o país já detém a maior reserva mundial de nióbio, a segunda maior de grafita e terras raras e a terceira maior de níquel, conforme destacou o próprio Lula durante a cerimônia de abertura da feira.
Lula impõe condições: o Brasil não quer ser mero exportador de commodities
Por outro lado, Lula deixou claro que o interesse brasileiro vai além da simples extração de recursos. O presidente afirmou que o governo não aceitará nenhum modelo que reduza o Brasil à condição de fornecedor de matérias-primas brutas para atender apenas à demanda externa. “Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer opções excludentes”, disse, ao reforçar que a cooperação em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade nacional.
Dessa forma, a postura brasileira aponta para a busca de agregação de valor à produção doméstica — o que significa processar os minerais em solo nacional, gerar empregos e ampliar a participação do país nas cadeias globais de valor. Além disso, Lula mencionou o interesse em intensificar a cooperação com a Alemanha em áreas de defesa, como tanques, drones e sistemas de defesa aérea, além de projetos conjuntos ainda em fase de discussão.
Acordos firmados ampliam o escopo da parceria
As consultas intergovernamentais de alto nível entre Brasil e Alemanha, realizadas também nesta segunda-feira em Hannover, resultaram em uma série de declarações de intenção que vão muito além dos metais críticos. Os dois países assinaram entendimentos nas áreas de inteligência artificial, tecnologias quânticas, cooperação científica e energias de baixo carbono, além de um memorando entre o programa alemão de aceleração e a ApexBrasil para fomentar startups e negócios baseados em conhecimento.
Consequentemente, o escopo da parceria se amplia de forma significativa. A cooperação em minerais críticos e estratégicos envolve, especificamente, uma Declaração Conjunta de Intenções sobre cooperação científica e tecnológica — o que sinaliza que a transferência de conhecimento alemão para o Brasil terá uma base institucional sólida.
Contexto: Mercosul-UE e o peso do comércio bilateral
O encontro em Hannover ocorre em um momento especialmente propício para as relações entre Brasil e Alemanha. O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia — que estava previsto para entrar em vigor em 1º de maio — serviu de pano de fundo para os discursos de ambos os líderes, que defenderam o multilateralismo em contraposição ao protecionismo crescente no cenário global.
Merz ressaltou que a Alemanha e o Brasil mantêm relações econômicas sólidas: em 2024, empresas alemãs exportaram mais de 13 bilhões de euros em bens para o Brasil, enquanto as exportações brasileiras para a Alemanha somaram quase 9 bilhões de euros. Ainda assim, ambos os lados enxergam potencial considerável de expansão, sobretudo nas áreas de energia limpa, tecnologia industrial e mineração sustentável.
Panorama: uma aliança com olhos no futuro da energia global
A aproximação entre Brasil e Alemanha em torno dos metais críticos reflete uma tendência estrutural da economia global. À medida que a transição energética avança — com a expansão dos veículos elétricos, das energias renováveis e da digitalização industrial —, a disputa por minerais estratégicos se intensifica. Portanto, países com reservas abundantes, como o Brasil, passam a ocupar uma posição de poder crescente nas negociações geopolíticas e comerciais.
Ao mesmo tempo, para a Alemanha, diversificar suas fontes de metais críticos é uma necessidade urgente, especialmente diante da dependência histórica de fornecedores asiáticos. Nesse sentido, a parceria com o Brasil surge como uma alternativa estratégica, politicamente alinhada e com enorme potencial de escala — desde que o Brasil consiga, de fato, avançar da extração para a industrialização dos seus recursos naturais.
