Shinji Mikami funda Unbound Games e Gang of Dragon enfrenta corte de financiamento
A indústria de games japonesa vive uma semana de contrastes. De um lado, Shinji Mikami, o criador de Resident Evil, anuncia seu novo estúdio independente com uma IP original ambiciosa. Do outro, o Nagoshi Studio, fundado pelo criador de Yakuza, enfrenta o corte iminente de financiamento da NetEase — colocando em risco o desenvolvimento de Gang of Dragon. Assim, os dois casos expõem as oportunidades e os riscos que os grandes nomes do setor enfrentam ao tentar se reinventar fora das grandes publishers.
Shinji Mikami inaugura a Unbound Games com projeto AAA
Em 9 de março de 2026, o mercado conheceu a Unbound Games, novo estúdio independente fundado por Shinji Mikami. O desenvolvedor japonês já havia deixado a Tango Gameworks em 2023 — empresa que ele próprio fundou e onde supervisionou títulos como The Evil Within, Ghostwire: Tokyo e Hi-Fi Rush. Portanto, a Unbound representa mais um recomeço na trajetória de um dos diretores mais respeitados da história dos games.
De acordo com o site oficial do estúdio, a Unbound opera desde maio de 2023, com Mikami atuando como diretor representante. Atualmente, a equipe conta com cerca de 50 profissionais e pretende crescer gradualmente até atingir 150 desenvolvedores.
O projeto de estreia do estúdio já está em desenvolvimento na Unreal Engine 5, com lançamento previsto para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC. Além disso, o produtor Masato Kimura, colaborador histórico de Mikami em títulos como Devil May Cry e Resident Evil, confirmou que o jogo busca equilibrar produção de alta qualidade com um escopo mais controlado. Segundo ele, a proposta é entregar uma experiência que define como “qualidade AAA com conteúdo em escala AA” — ou seja, imersão e acabamento de grandes títulos, sem os orçamentos bilionários típicos das maiores franquias do mercado.
Kimura ainda descreveu a cultura interna do estúdio como experimental e baseada em iteração constante. Consequentemente, a equipe testa, refina e até descarta sistemas ao longo do desenvolvimento, o que exige profissionais adaptáveis e confortáveis com mudanças frequentes.
Gang of Dragon perde financiamento da NetEase em maio
Enquanto isso, o Nagoshi Studio enfrenta uma crise de proporções bem diferentes. Um porta-voz da NetEase Games confirmou ao Bloomberg que a empresa encerrará o financiamento do estúdio em maio de 2026. O corte afeta diretamente o desenvolvimento de Gang of Dragon, o primeiro título do estúdio fundado por Toshihiro Nagoshi, criador da franquia Yakuza/Like a Dragon.
A decisão da NetEase faz parte de um movimento mais amplo da empresa para reduzir as atividades em desenvolvimento de jogos. Anteriormente, esse mesmo processo resultou no fechamento do Ouka Studios, responsável por Visions of Mana. Portanto, o caso do Nagoshi Studio não é isolado — reflete uma mudança de prioridades da publisher chinesa no setor.
Segundo fontes próximas à situação, a NetEase teria descoberto que o projeto demandaria pelo menos US$ 44,4 milhões adicionais para chegar ao fim. Diante desse valor, a empresa optou por encerrar o suporte. Os funcionários do estúdio souberam do corte no dia 6 de março.
Entretanto, há uma saída possível no horizonte. A NetEase teria informado ao Nagoshi Studio que ele pode buscar independência — porém, para manter os materiais e a marca de Gang of Dragon, o estúdio precisaria arcar com os custos da separação. Até o momento, a busca por novos investidores não produziu resultados concretos. Nagoshi, entretanto, já havia demonstrado determinação pública: em entrevistas anteriores, o desenvolvedor afirmou que não decepcionaria os fãs de seus trabalhos anteriores.
Dois caminhos distintos para a indústria japonesa
Os dois casos ilustram, de forma oposta, os desafios do desenvolvimento independente no Japão. A Unbound Games de Mikami aposta em uma estrutura enxuta, com filosofia clara de produção e equipe planejada para crescimento gradual. Por outro lado, o Nagoshi Studio enfrenta a instabilidade de depender de um único financiador externo em um projeto de grande escala.
Afinal, em um mercado onde os custos de produção crescem a cada geração, sobretudo nos títulos AAA, a sustentabilidade financeira se tornou um desafio tão importante quanto a qualidade criativa. O desfecho de Gang of Dragon e o primeiro jogo da Unbound prometem revelar muito sobre o futuro dos estúdios japoneses independentes nos próximos anos.
