Do Wi-Fi aos laboratórios: o protagonismo feminino na tecnologia que moldou o mundo — e transforma o Brasil

Do Wi-Fi aos laboratórios: o protagonismo feminino na tecnologia que moldou o mundo — e transforma o Brasil

Por trás do Wi-Fi, do GPS e do Bluetooth há um legado feminino que, por décadas, permaneceu invisível. Essas tecnologias, usadas por bilhões de pessoas todos os dias, têm raízes em descobertas feitas por mulheres. No mês em que o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, o protagonismo feminino na tecnologia volta ao centro do debate. Não se trata apenas de resgate histórico. É, sobretudo, o reflexo de uma transformação em curso no Brasil e no mundo.

As pioneiras que mudaram a história da computação e das telecomunicações

Antes de qualquer smartphone ou conexão sem fio, mulheres como Ada Lovelace, Grace Hopper e Hedy Lamarr já redefiniam os limites do possível. Ada Lovelace foi matemática inglesa e viveu no século XIX. Ela traduziu para o inglês um artigo sobre a máquina analítica de Charles Babbage, em 1843. Além disso, foi além da tradução: acrescentou anotações que se tornaram a base conceitual da programação moderna. Ada previu que as máquinas poderiam manipular símbolos, não apenas números — uma visão que só o século seguinte conseguiu compreender. Por isso, ela é reconhecida como a primeira programadora da história.

Grace Murray Hopper, por sua vez, era doutora em matemática pela Universidade de Yale. Ao programar o computador Mark I durante a Segunda Guerra Mundial, ela desenvolveu estudos que resultaram na criação do COBOL. Trata-se de uma linguagem de programação em inglês, ainda usada por empresas em todo o mundo. Além disso, Grace popularizou o termo “bug” ao encontrar, literalmente, uma mariposa presa em um relé do computador Harvard Mark II, em 1947.

Hedy Lamarr, por sua vez, era atriz austríaca e inventora. Em parceria com o compositor George Antheil, ela criou um sistema de comunicação por salto de frequência. O objetivo era dificultar a interceptação de torpedos nazistas. A patente foi registrada em 1942. Entretanto, a Marinha americana ignorou a invenção na época. Mesmo assim, a tecnologia tornou-se a base do Wi-Fi, do GPS e do Bluetooth. Somente em 1997 o governo norte-americano reconheceu oficialmente o seu trabalho.

O Brasil tem seus próprios exemplos de mulheres na ciência e na inovação

No cenário atual, o protagonismo feminino na tecnologia não é apenas memória histórica. No Brasil, esse movimento ganha forma em laboratórios, universidades e empresas. Entre 2015 e 2022, a participação feminina no setor de tecnologia cresceu 60%, segundo dados do CAGED. No entanto, as mulheres ainda ocupam apenas 12,3% dos cargos do setor. Enquanto isso, 83,3% do mercado permanece nas mãos de homens.

Esse desequilíbrio, portanto, não apaga o impacto de quem já está abrindo caminho. A cientista da computação Camila Archutti é CEO da Mastertech e doutoranda em Ciência da Computação pela USP. Ela é uma referência nacional na luta por mais mulheres na tecnologia. Para Archutti, o problema não é falta de talento. É, antes, falta de oportunidade, de redes de apoio e de ambientes que acolham as mulheres ao longo da carreira. Consequentemente, a solução passa por ações concretas: mentoria, políticas de combate ao assédio, metas de diversidade com acompanhamento real e transparência salarial.

Cristiana Camarate, superintendente de Relações com Consumidores da Anatel, reforça essa visão. Com 20 anos de trajetória em regulação de telecomunicações, ela defende que o espaço existe — e que as mulheres não precisam abrir mão da família para ocupá-lo. “Não é a escolha binária. É uma construção e um equilíbrio que cada uma pode fazer”, afirmou.

Suzano: maioria feminina em laboratórios de inovação no interior de São Paulo

Um dos exemplos mais concretos do protagonismo feminino na ciência aplicada vem do interior paulista. Na unidade de Limeira da Suzano, maior produtora mundial de celulose, o laboratório de inovação reúne 38 mulheres. Elas representam a maioria dos 66 profissionais do setor. Além disso, o perfil acadêmico da equipe é expressivo: cerca de 90% dessas profissionais têm graduação e 60% possuem pós-graduação, mestrado ou doutorado.

Elenice Pereira é especialista em Pesquisa e Desenvolvimento e atua na Suzano há mais de 25 anos. Atualmente, ela participa de uma experiência internacional na fábrica da empresa nos Estados Unidos. Assim, contribui para projetos de qualidade e inovação em escala global. Em Jacareí, outra unidade da companhia conta com 39 mulheres em um laboratório de 72 profissionais. Já em Itapetininga, a divisão de biotecnologia FuturaGene registra mais de 60% de participação feminina. Foi nesse ambiente, inclusive, que a equipe ajudou a conquistar a aprovação do primeiro eucalipto geneticamente modificado do mundo, em 2015.

Dessa forma, ao ampliar a diversidade em seus centros de pesquisa, a Suzano demonstra que ambientes técnicos inclusivos produzem ciência mais robusta. Entretanto, esses casos ainda são exceção num setor onde mulheres seguem sub-representadas nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

O desafio de transformar referências em oportunidades reais

Por fim, o debate aponta para uma conclusão clara: a baixa presença feminina na tecnologia não é natural nem inevitável. É, sobretudo, resultado de barreiras históricas que podem ser derrubadas com políticas públicas, ações empresariais e mudança cultural. Portanto, recordar Ada Lovelace, Grace Hopper e Hedy Lamarr não é apenas homenagem. É, antes de tudo, um convite à ação. Afinal, o futuro da inovação depende de equipes plurais — e o Brasil já tem exemplos para seguir.

Lia

Lia

Lia é uma apaixonada redatora e exploradora das palavras, com formação em Comunicação Social. Com experiência em diversos meios digitais, Lia traz um olhar curioso e uma escrita envolvente para nossos leitores.

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